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ago 12 2008

Epístola aos Blogueiros

Cuspido por Tio Punk às 14:24 Categoria Blogosfera, Eu queria ter escrito isso, Internet

BlogosferaCerta vez, em conversas “emiessiênicas” entre blogueiros, eu comentei que achava que blogueiro escrevia pra blogueiro lê, o meu amigo Guilherme Lautenschläger do Caixa Pretta discordou, falou que não acreditava nisso. Bom, talvez eu até esteja errado, mas sabe tenho essa impressão que pessoas “normais” não lêem Blogs, talvez até leiam um ou outro desses “famosões” ou entram por um acaso, como os conhecidos “pára-quedistas” e não dão a devida atenção ao blog e ao que está escrito.

O texto a seguir retrata exatamente a vida de blogueiro, é a síntese do que passamos, me senti como se estivesse sido escrito por mim ou pra mim.
É texto pra blogueiro lê, mas o leitor normal (se existir) também deve lê, é um pouquinho extenso mas realmente vale a pena.

Epístola aos Blogueiros

Nunca invejei Santo Agostinho pela sua salvação. Não conseguiria repeti-lo. Guarda-se a impressão de que ele quis se livrar da danação no ombro do Pai. Olhando de perto, ele foi mais corajoso do que conformista. Antecipou o inferno aqui. Não esperou para sofrer na outra dimensão. Pagou à vista o inferno. Converter não é encontrar Deus, é encontrar o inferno.

Blog traduz uma prova de resistência. Um big brother ao avesso dos gêneros literários. Ao invés de ser conhecido, corresponde a um mergulho adoidado no anonimato. Distinto da noção do senso comum de que se trata de um lugar para aparecer. O resultado final (a possível badalação de um endereço virtual) não expõe a realidade. Os exibidos foram antes tímidos, os extrovertidos foram antes introvertidos. É a mais dolorida experiência editorial. O mais severo teste vocacional. Uma ferramenta do diabo, capaz de sugar sua vida ou sua aspiração.

Indica a fronteira entre o amador e o escritor, entre o diletante e o renitente, entre o curioso e quem não consegue se afastar da compulsão narrativa. O amador cansará nos primeiros meses. Vai deduzir que não vale a pena o trabalho, que ninguém lê. Uma tortura postar textos durante três meses e não receber nenhum comentário.

São os quarenta dias do deserto, com as tentações sobrevoando o teclado.

“Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio e, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, teve fome”
Mateus, versículo 4, 1:


Você pensou que aquilo seria a glória instantânea. Caprichou na redação, no humor e nas perspectivas singulares de captura do cotidiano. Mas o único que entra no site é você. Trinta vezes ao dia. Chega a esbarrar consigo entre tantos acessos e atualizações. Uma miragem. Cada texto é um quarto vago. O demo do reconhecimento insiste em tomar seu lugar. Procura contornar o drama. Manda um aviso de postagens para os amigos. Prepara uma festa-surpresa de aniversário, com o atrativo de que é o aniversariante quem a organiza. Continua sendo surpresa; nenhuma alma comparece. Daí manda um aviso de postagens para os desconhecidos, catando endereços aleatórios. Nada mais o separa de um SPAM. Recebe avisos ásperos: “não o conheço” ou “favor me excluir da lista”. A humilhação não começou. O desespero o obriga a fazer atos impensáveis: entrar de computadores diversos para fazer com que o contador se mexa de alguma forma. Assim como um atacante chuta a bola para as redes alheio á marcação do impedimento. Para se livrar do azar. Ainda que esteja quebrando uma das regras básicas do jogo e leve um cartão amarelo. Não há nem juiz para lhe dar cartão amarelo.

Percebe que lançou um texto com um erro gravíssimo de português. Estava na rua quando lembrou a indecisão ortográfica, longe de qualquer terminal. Foi observando um outdoor. Corre para uma lan house, consome seu suspiro sem sentir o gosto, arruma e conclui que tampouco alguém reparou.

Decide escrever qualquer coisa que continuará sendo qualquer coisa. O isolamento do blog produz alucinações. O contador de visitas parece uma bomba-relógio: anda para trás.

Mas tortura é quando finalmente recebe um comentário. Alegria aflita para abrir a janela, quem será? quem será?, descobre que partiu do pai ou da mãe, solidário com sua desgraça. Não pode comemorar, agora intui que seu pai ou sua mãe conhecem o fracasso de sua rotina.

Sua personalidade passará a se dividir, e não multiplicar como desejava. Sede de laranjas. Laranjas! Sem pudor, cria pseudônimos para deixar comentários (o blog, pelo menos, obriga que seja seu próprio leitor). Diverte-se no sofrimento ao inventar formas de agradecimento pelos textos. Não economiza elogios ao estilo. Estará perto da internação quando se convence de que aqueles comentários não são seus e ainda responde aos e-mails falsos. Hora do soro!

Depois de postar, o autor perde a privacidade para se tornar - teoricamente - domínio público. Mas não saiu do caramujo do quarto, e entenderá que escrever e ser conhecido não acontece simultaneamente.

Há a idéia equivocada de que todos os leitores do mundo estão esperando sua publicação, que basta acenar para a luz do sol que imediatamente será linkado, sugerido, alardeado. Ao deixar minha casa, não recebo nenhuma proposta sedutora no caminho. Nunca encontrei nenhum editor no metrô. O que me leva a constatar que o blog é o metrô da internet.

Escrever na rede é uma tentativa de suicídio, chamar atenção dos outros para a nossa carência. Um aviso escandaloso da nossa fragilidade. Pensando bem: publicar é um suicídio frustrado. Quando o ímpeto de sair da vida é usado para entender a própria vida e as dificuldades enfrentadas pelos demais autores.

Uma das virtudes do blog é justamente sua provação. Agüentar os contratempos no osso. Ver que não é um elogio que o fará continuar, muito menos uma crítica que o fará desistir. Que nascer para a letra é amar a insuficiência. O escritor se sucede progressivamente. Melhora. Estar sozinho é ainda estar povoado. Povoado por dentro. Pelos personagens, pelas histórias familiares, pela observação aprofundada dos seus arredores. Só quem foi fantasma um dia poderá alimentar seus fantasmas.

Procura-se um reconhecimento externo e encontra-se algo mais preciso: a afirmação pessoal na persistência. Procura-se lá fora o que já se tinha. Como diz Santo Agostinho:

“Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim.”

O esforço de sair da solidão ajuda curiosamente a fortalecê-la. Compreende que não escreve para completar um diário, ou para repetir sua história, se fosse assim não contaria com assunto para atualização semanal, mesmo que desfrutasse de uma trajetória acidentada e heróica como a de Hemingway.

Escreve para duvidar e se banhar na luminosidade da confusão biográfica. Acima de tudo, compreende que a imaginação não julga como a memória. Que imaginar é delicioso, imaginar: uma memória sem culpa.

Um texto postado é como um texto impresso. Mais fácil para localizar os erros, os tropeços, formar distanciamento. Confere uma maioridade na escrita, reforça uma postura profissional de jardinar e cuidar do verbo, de alterar a prosa e a poesia em nome da transparência e da fluidez. Há a formação gradual de uma assinatura, transmitindo uma visão de ser responsável por aquilo que se diz, de assumir honestamente as dívidas da boca. Organiza-se o rascunho, que é bem mais duro do que redigi-lo.

Não é fácil a rotina da blogosfera. Terá que superar vários fins, várias negativas, várias mortes. Superar a expectativa de fama pelo prazer do texto.

Por isso, o prazer necessita ser mais forte do que a dor. O masoquista é o que gosta mais do sofrimento do que da carícia. O blogueiro é o que esquece a ferida pela alegria.

A diferença entre guardar o inédito no blog e na gaveta: o blog é uma gaveta aberta.

[Publicado no caderno Cultura, do jornal O Estado de S. Paulo]

Escrito por Fabrício Carpinejar.

Dica da Lady Cronopio que viu aqui.

20 Vomitaram em “Epístola aos Blogueiros”

  1. Rafaelon 12 ago 2008 at 21:59

    Muito bom o texto! As vezes blogar é isso mesmo. Um exercício de persistência.

    abraço Tio!

  2. Super Wallaceon 12 ago 2008 at 22:00

    Muito maneiro o texto, muito mesmo. Uma reflexão da vida do blogueiro; só quem bloga sabe como é…

  3. Negão Internautaon 12 ago 2008 at 22:23

    buááááááááááaáááá

    Finalmente, um texto que reflete toda a profundidade de ser um blogueiro. Vai além do egocentrismo e do complexo de grandeza. Existem pessoas especiais por detrás desses templates e posts.

    Bom achado, Família Punk (Tio e Lady)

    Abraço.

  4. Guilherme Lautenschlägeron 12 ago 2008 at 23:15

    Realmente Tio Punk, sempre defendi a tese de que não são apenas blogueiros que lêem blogs.
    Mas a cada dia esta tese começar a ir por água abaixo. Qualquer despudorado que entra em um blog já pensa: “Ah, isso eu também sei fazer. Vou começar a blogar!”, e assim vai nascendo centenas, milhares, ou mais blogs por dia, uma pena. A primeira coisa que resolvem decidir é para quem pedir parceria, e não um layout digno de determinadas parcerias. Malditos!!!

    E a “Epístola aos Blogueiros” reflete a pureza de começar este infame trajeto internético.
    Talvez sirva de motivação para os extintos leitores não se tornarem blogueiros.

    Abraços.

  5. Lady Cronopioon 13 ago 2008 at 6:27

    eita!
    beijos e tudo.

  6. Um cara aeon 13 ago 2008 at 10:04

    não poderia concordar mais, é triste.

    e eu infelizmente concordo que só blogueiros lêem blogs e em alguns casos, nem blogueiros.

  7. Andréia Linoon 13 ago 2008 at 10:36

    Acho q fui esperta qdo decidi colocar minhas ideias e vontades no ar, é o q penso sobre meu blog apesar de sempre me sintir frustada!
    ainda bem q nao passei por essa fase, + pq n passei? explico. qdo criei meu humilde blog, ja contava minhas história e fazia rir meus clientes, juntei o últil ao agradavel.
    criei o blog e coloquei em todos os terminais na minha lan house, assim ganhava dinheiro com os acessos e ganhava publico no blog com meus clientes. isso foi um sonho até o google me bloquear no adsense =/ motivo: meus clientes estavam clicando nos anuncios e o IP são todos iguais, ele entendeu q era eu quem clicava =/
    qdo isso aconteceu parti para a selva q eh a blogosfera… onde ai descobri o lado negro dela (panelinhas, parcerias, rank) e todas essas coisas q como disse um amigo são as “ondinhas” da blogosfera, porém isso é assunto para se debater um outro post.

    adorei! sucesso Tïo para ti
    e espero q n só blogueiros leiam e acompanhem nossos blogues.

    bjos!
    \o/

  8. Michel Souzaon 13 ago 2008 at 10:46

    Realmente acho que blog é lido em sua maioria esmagadora por blogueiros, mas dependendo do blog e do boca a boca pode-se até ser “famoso”…

  9. DJ Raphael Mendeson 13 ago 2008 at 13:24

    Muito bom Tio, vida de blogueiro não é fácil.

    Abração!

  10. Fred Fagundeson 13 ago 2008 at 17:34

    Veja o maior blogueiro do Brasil: Inagaki. É um exemplo de anti-celebridade.

    Que faz um blog em busca de fama está no caminho errado.

  11. cleitonon 13 ago 2008 at 22:17

    Pois é, no final das contas sao textos como esse que me deixam mais animado com o blog. mesmo na época das vacas magras eu tenho que continuar blogando nao pelo sucesso, nao pelo dinheiro, apenas por prazer em blogar. Abraço!

  12. Super Wallaceon 13 ago 2008 at 22:37

    Como o Gui-lindo (a.k.a Guilherme Lautenschläger) disse, o mal de hoje em dia é a idéia das pessoas de que blogs são iguais a rios de dinheiro. Não é bem assim e quem bloga sabe como é.

    E concordo com o GuiGato quando o mesmo diz que não só os blogueiros acessam blogs. Blogues também acabam adquirindo seu público fora da blogosfera. Beijosmekibem.

  13. Alexander Bastos (Piratas!)on 14 ago 2008 at 16:14

    .
    .
    Vote no TIO PUNK para presidente do Sindicato dos Blogueiros!!
    .
    .

  14. Zanfaon 14 ago 2008 at 19:24

    Ôlocomeu, que texto profundo. Realmente reflete tudo o que eu pensava sobre blogosfera, de uma maneira mais clássica e enfeitada, é verdade, mas mesmo assim correta.

  15. Bobalinks | Bobagentoon 15 ago 2008 at 5:18

    [...] Desabafo: Epístola aos blogueiros. [...]

  16. ñ blogueiro leitor de blogson 15 ago 2008 at 13:21

    este comentario ta um poko grande mas espero q vcs blogueiro e ñ blogueiros leiam

    ñ sou blogueiro porque ñ tenho tempo e acretido q ñ tenho o dom

    ñ é qualquer um q pode ser blogueiro.criar um blog é facil e gratuito mas conseguir escrever textos tão bons quanto este q akabei de ler num é pra qualquer um ñ.

    bom mas estou escrevendo para dizer q ñ sou um blogueiro mas mesmo assim leio varios blog (bobagento,irmaos brain,danosse,Pudim de Beterraba,kibe loco,Dr.pepper,entre outros) e ñ simplismente leio,aprecio

    os bobalinks é a unica coisa q me faz acordar cedo num sabado de feriado(e foi atravez deste q cheguei aki)espero sempre ancioso para ver as hilarias tirinha dos irmãos brain ou do dr.pepper deixo de estudar para poder ler as engraçadas criticas do PdB e do kibe loco e apesar de ter conhecido o danosse ontem ja visiei no blog e depois desde texto tio punk entra tb na milha lista de melhores blogs

    espero q vcs(blogueiros)leiam este texto e saibam q aki sempre tera um leitor de seus desabafos ou de suas piadas e ainda divulgando o maravilhoso dom de todos vcs

    obs:pelas minhas contas ja trouxe uns 6 leitores de blogs ñ blogueiros para essa maravilhosa blogosfera!!!

    abração e apesar das dificuldades ñ desistam pq o q seria de mim sem vcs e seus blog

    abraços de seu leitor numero 1!!!!!

  17. [...] Epístola aos Blogueiros (Vale a pena ler) [...]

  18. Ana Craneson 19 ago 2008 at 3:36

    Lendo esse texto percebo que não sou uma blogueira…..

    Apenas alguém que gosta de escrever….

    E a maioria dos meus leitores são meus amigos e alguns colegas que eu fiz com o blog… além de pessoas que descobrem o blog através do Google

    É me sinto um peixe fora d’água…

  19. Ronaldoon 20 ago 2008 at 7:38

    Sabe, eu até concordo contigo dos blogueiros são os leitores dos blogs, as pessoas são desinformadas aqui no Brasil.

    dou aulas de info e falo para as pessoas entrarem em blogs, incentivo a fazer, mas no começo tudo vai, depois….

    Nem sei se é a divulgação que fazemos, mas sei que a maioria que entra em meu blog é de blogueiros sim

    Abs

    Ronaldo
    http://ronaldinho75.blogspot.com/

  20. Suélenon 25 ago 2008 at 12:37

    Muito interessante o texto.
    o que me fez perceber, novamente, que um bom blogueiro não vive só de Ctrl+c e Ctrl+v. Um boom blogueiro tem que ter talento.
    O que me falta hehehe e por isso sou apenas leitora. E acho q muiiiiiitas pessoas “normais” lêem blogs sim. Eu sou um bom exeplo. Tenho pelo menos 30 blogs na minha lista de favoritos, que visito tooodos os dias. Não só esses famosinhos por aí… efalando em famosos, elo que ando acompanhando… quanto mais famoso.. menor a qualidade dos posts. Claro que tem uns por aí somente interessados no diheiro ou na fama, mas a cada dia passo a admirar mais e mais àqueles que blogam por prazer. Esses sim são os melhores…

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